Delirium tremens II

Vomitando nuvens no dia de chuva
Atropelo sonhos dos jardins de ócio
No fel da fantasia falsa da uva
Criatura expulsa, réu do mal negócio

Arrepios dissonantes de tantas noites vãs
Tecendo as trevas do abandono
Apagando os sóis telúricos das manhas
Incendiando a noite irreal, no sonho

Tanto mar defronte e tanta brisa
Eu turvando a vida do lado de dentro
Com a alma solta o corpo agoniza
Distorcendo o mundo no perdido centro

Ó pesado álcool que me aprisiona
Ao submundo mudo dos precipícios
Na cadeia escura e cruel da zona
Onde bebo e como todos os hospícios

Onde deus que me levantasse
Desse chão de cuspe e solidão
E me arrependesse e me atirasse
Desse mundo alheio para outro chão

Onde sonhos sóbrios me arrematasse
Das trevas tremulas de desilusão
E num rio límpido me lavasse
E me devolvesse pleno, salvo e são
Para o raiar de um novo dia
Feito do pão puro da poesia

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