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Mostrando postagens de dezembro, 2012

Pedaços do dia (Pedágio do Tempo)

Mórbida a tarde Observa Absorve Vivencia A chuva chorando angustia Sobre os telhados e canteiros Sobre o sal e as sobras do mar (sobre a imagem do teu sorriso) As buzinas dos carros de faróis acesos Parecem sinos dobrando A procissão dos signos de finados Esquinas de enterros Mórbido silêncio soletrando O cio das horas mortas Pairando sobre o espaço cinza Do vidro turvo turvando paisagens Da vida turva travando horizontes Quebradas vidraças Resquícios de saudade Nódoas de lembranças Presas no vago vácuo De sobrados e sombras No opaco ocaso do jamais Francisco Tribuzi

Mamãe II

Minha mãe transita Dentro da casa, e só Sua dor me visita Mas de mim tem dó Minha mãe imita Só a própria casa E lhe corta a asa Quando se irrita Minha mãe se precipita Por qualquer filho E nos capacita Com a luz e o brilho De sua estrela-guia Do seu jardim de flor Minha mãe é cria Do mais puro amor Tão pequena, anjo de ternura Acariciando-nos sem distinção Apagando o fogo de nossa amargura Com a água benta do seu coração Minha mãe é tudo Que Deus me deu É meu conteúdo O eu do meu eu Francisco Tribuzi

Mamãe

A minha mãe presente Mora muito bem Com muita gente E com ninguém É a sombra sobre A penumbra da solidão Um ser impa, nobre Absurdamente são Sábia, lucida e rara criatura Guardiã de filhos e de netos Herdeira da ternura dos sonetos Acesa fé no abismo da amargura Mãe, olha nos olhos, Maria E vê tua historia refletida A nossa cruz nos teus dias Por quem esgotas a tua vida Por ti é que professo a fé No amor e na igualdade Oh flor viva de felicidade Remando contra a maré                que nao recebe seus rios                como filhos da eternidade. Francisco Tribuzi

Meu amor

Meu amor é infalível Como tiro de revolver Se eu mirar teu coração Nosso amor sera incrível Bem maior que impossível Quase como loteria Esse amor imprevisível Forte como a luz do dia Meu amor incorrigível Como cio, como vicio Desejo indestrutível Chama vida do "hospício" Meu amor não tem mistério Nem caixinha de surpresa Meu amor não tem critério Nem ataque nem defesa Ou vai além do cemitério ou termina sobre a mesa Não discute desavença Nem repete confusão Desacredita a crença Da formada opinião Quando pensa que é sim Atravessa a contra-mão Meu amor é mesmo assim Cheio de contradição Mais no fundo é infalível Mas que a falácia dos imortais De discursos de auto nível E atitudes imorais Meu amor só irradia No amor de quem se entrega Nos braços da poesia Onde a fé é certa e cega Francisco Tribuzi

Maria

No silêncio da noite, sinto tuas mãos acariciando meu rosto, meu resto de sono. Depois acordo sem pernas que me levem para teus braços. A dor maior do mundo Que me entorpece Apesar do amor profundo Apesar da fé, da prece. No silêncio da noite sinto que já não tenho a mesma calma de quando o teu carinho acalentava a minha alma. A dor maior do mundo Que me entorpece Apesar do amor profundo Apesar da fé, da prece. No silêncio da noite sombria a treva cai sobre mim, um milagre ao raiar do dia. - Deus me diz: Não é bem assim! Fique em paz Para isto eu vim Não existe jamais Não existe um fim Agora sei que carrego Minha mãe dentro de mim. Francisco Tribuzi

Ausência

Por esconderes tua boca Nos grilhões da noite Quebrei meu beijo no mural de vidro E derramei paixão nas sargetas do silêncio Tu te mudaste ontem e já se vão mil luas Que os lugares comuns, parecem ruínas Por esconderes tua boca Nos grilhões de vidro Quebrei meu beijo no mural da noite. Francisco Tribuzi

Delirium tremens II

Vomitando nuvens no dia de chuva Atropelo sonhos dos jardins de ócio No fel da fantasia falsa da uva Criatura expulsa, réu do mal negócio Arrepios dissonantes de tantas noites vãs Tecendo as trevas do abandono Apagando os sóis telúricos das manhas Incendiando a noite irreal, no sonho Tanto mar defronte e tanta brisa Eu turvando a vida do lado de dentro Com a alma solta o corpo agoniza Distorcendo o mundo no perdido centro Ó pesado álcool que me aprisiona Ao submundo mudo dos precipícios Na cadeia escura e cruel da zona Onde bebo e como todos os hospícios Onde deus que me levantasse Desse chão de cuspe e solidão E me arrependesse e me atirasse Desse mundo alheio para outro chão Onde sonhos sóbrios me arrematasse Das trevas tremulas de desilusão E num rio límpido me lavasse E me devolvesse pleno, salvo e são Para o raiar de um novo dia Feito do pão puro da poesia

Delirium tremens I

Qual o mar que te navega Na viagem solidão Que saudade te carrega Deste posto de ilusão. Para o sonho que te nega O desconforto da razão Desta madrugada cega Te guiando para o vão. Ó silêncio quase-morte Infinita escuridão Em que noite a tua sorte Se perdeu de tua mão. Qual a cor da manhã Que adormeceu tua canção E fez tua estrada vã Pondo treva em tua visão. Entre os dedos escapole Teus segredos mais um gole Deste mundo vomitado Entardeces em febre e ruga Não há mais tempo pra fuga És um grito amordaçado. Francisco Tribuzi - 1° lugar no concurso nacional de poesia da revista Brasília.

Velha, São Luís eterna [crónica]

Parado o tempo, as folhas dos galhos das árvores seculares nem mexiam, um sol escaldante. a beira-mar parecia um quadro primitivo banhado de luz, contra a treva melancólica do provincianismo ludovicense.  Os portugueses, senhores plenos do comércio de grande porte, chegavam com os primeiros raios da manhã e, espantavam os pássaros e estivadores que, sonolentos, cochilavam nas calçadas bordadas de pedras de cantaria, quando levantavam as portas sanfonadas de alumínio, dos armazéns. As senhoras, logo depois, chegavam com as comprar, com seus vestidos rendados e compridos e seus chapéus-de-sol. O mar furioso de agosto esmurrava a rampa Campos Melo adjacências, trazendo os primeiros barcos e lanchas com porcos, galinhas da terra,vindo das ilhas circunvizinhas, o famoso caranguejo da ilha do mesmo nome e dos peixes fresquinhos da hora, pescado ali mesmo, nas imediações do que hoje chamamos de Bacanga; trecho que liga por estrada asfaltada, o centro da cidade via madre de ...