Vestida de mulher

Chegou esbaforida, olhar de desconfiança, semblante de gente desiludida, sentou-se num banco de estação rodoviária, passou a mão na testa, suspirou, pôs-se a conferir o dinheiro. De súbito olhou a paisagem com o olhar perdido como se tivesse viajando em pensamentos. Ficou assim por alguns minutos, como que revisando na tela de sua retina, os filmes reais de momentos vividos, na maioria difíceis, de um passado não tão distante assim. Levantou-se desanimada, foi ao guichê de passagens e comprou a sua. Já no ônibus, sentada do lado da janela, fechou os olhos para não ver, quem sabe, sua própria duvida, seu desespero, a angústia de não saber o que fazer com sua própria agonia. As lágrimas começaram a caí sem que ela se preocupasse em escondê-las. O ônibus, lento sumia com a tarde por entre as árvores e os matos do caminho e ela, misteriosa, engolia a voz lavada de sofrimento e tristeza. Quiz soluçar, mas conteve-se, levou as mãos ao rosto, tentou, em vão, refazer-se. Inútil. Todos perceberam que naquela poltrona, ao lado da janela, com suas bagagens de dor, quem viajava era a própria solidão, vestida de mulher.

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